Ao contrário do que foi divulgado, a comunidade indígena descoberta recentemente na região da Amazônia, cujas fotos pipocaram em quase todas as primeiras páginas dos jornais em todo o mundo, já era conhecida há bastante tempo. Em 1910, esses indígenas já tinham sido mencionados e, há duas décadas, já eram conhecidos pelos técnicos da Fundação Nacional do Índio (Funai), embora até hoje vivam isolados do contato com a civilização.
As fotos, que mostram os indígenas pintados de laranja e preto e com arco e flecha apontados para os aviões, foram divulgadas pela organização Survival International, entidade que luta pelos povos nativos no mundo. A ONG e a Funai promoveram a publicidade do caso para pressionar o governo brasileiro a protegê-los e evitar a entrada de motosserras na reserva, próxima à fronteira com o Peru. Na Holanda, os jornais publicaram as fotos na primeira página.
Por quê muitos meios de comunicação colocaram esta notícia em destaque? Peter Jorna, antropólogo e atual presidente do Centro Holandês para Povos Indígenas (NCIV), explica que o fato gera interesse. A popularidade de séries televisivas como "Saudações da Floresta", da televisão holandesa, e "Tribo", da rede britânica BBC, ilustram o caso.
Jorna acrescenta ainda que a procura de povos indígenas isolados, a idéia de se deparar com um povo selvagem e nobre, que ainda não foi descoberto pelos brancos, é "exoticamente excitante e popular". No caso, a existência destes índios brasileiros já era conhecida dos pesquisadores, mas eles tiveram seu isolamento respeitado e nunca tiveram contato com o homem branco por ser esta a política da Funai em relação às tribos isoladas.
Repercussão
A atenção internacional provocada pelas fotos fez com que o governo peruano tomasse medidas para controlar o corte desenfreado de árvores pela indústria madeireira na fronteira com o Brasil. Mas a estratégia da Survival International e da Funai tem seus riscos.
"O bom objetivo justifica os meios", disse o antropólogo Peter Jorna, embora ele desconfie que a foto possa ter sido encenada. "Esta nunca seria a minha maneira de lutar pelos povos indígenas, mas posso entender porque a Funai teria optado por ela", afirma o antropólogo holandês.
Responsabilidade do governo
Jorna, que em 1994 trabalhou na Amazônia para a Funai, reforça que a instituição indigenista tem poucos meios financeiros para atingir seus objetivos e executar seu trabalho. Segundo ele, funcionários da Funai na região estão vulneráveis a subornos de madeireiras e mineradoras. "Mais atenção e apoio à causa indígena é, portanto, muito bem-vinda", diz Jorna.
A atenção mundial para com os povos indígenas da região Amazônica é favorável à manutenção e preservação do modo de vida deles. De acordo com o antropólogo, agora a bola passou para o lado do presidente Lula. O Brasil tem uma boa Constituição para os povos indígenas, mas a aplicação desses direitos deixa a desejar. "A manutenção dos direitos dos povos indígenas exige uma atuação política a longo prazo", conclui Peter Jorna.
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